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Cuiabá MT, Segunda-feira, 01 de Março de 2021
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Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2021, 00h:00

MÚSICA

Show histórico de João Gilberto, Caetano Veloso e Gal Costa em 1971 ressurge; Gal celebra: "Importante vir à tona"

Pesquisador Pedro Fontes publicou no YouTube as gravações do encontro que Caetano narra como fundamental para sua volta definitiva do exílio

LUCCAS OLIVEIRA
Da Agência Globo – Rio
João Gilberto, Gal Costa e Caetano Veloso

Uma verdadeira pedra preciosa da Música Popular Brasileira, até pouco vista como inexplorável por fãs e pesquisadores, está disponível para audição gratuita e em boa qualidade no YouTube desde a última terça-feira. Trata-se da gravação de “Chega de saudade”, um especial da TV Tupi que reuniu, em São Paulo, em agosto de 1971, João Gilberto, Caetano Veloso e Gal Costa.

O material, com 22 canções ao vivo, está disponível em áudio no canal Esqueleto Lavrador (youtube.com/esqueletolavrador), organizado pelo produtor e pesquisador musical carioca Pedro Fontes — que também realizou o tratamento do áudio.

Além da importância musical do encontro entre os três baianos, símbolos da bossa nova e da tropicália, o espetáculo tem também um significado histórico: graças a ele, Caetano Veloso, então exilado em Londres por conta da ditadura militar, decidiu que era hora de voltar para o Brasil, o que faria cinco meses depois.

É o que ele conta no livro “Verdade tropical”, narrando desde o telefonema-convite de João Gilberto, em que o criador da batida diferente garantiu que o episódio traumático de sua visita anterior ao Brasil, meses antes, para comemorar o aniversário dos pais, não se repetiria.

 

A premonição de João

Na primeira vinda, Caetano foi preso na escada do avião, interrogado e ameaçado por seis horas na Presidente Vargas, e transportado de camburão para a casa da irmã, Maria Bethânia. “É Deus quem está me pedindo para eu lhe chamar. Ouça bem: você vai saltar do avião no Rio, todas as pessoas vão sorrir para você. Você vai ver como o Brasil te ama”, disse João a Caetano, como este narra no livro. Depois, a confirmação do poder premonitório de João: “Não me dava o direito de descrer da palavra de João. Sobretudo não poderia desobedecer a ele (...) Ao desembarcar no Rio, tudo se deu como João Gilberto tinha profetizado. (...) Eu olhava para João com um assombro multiplicado. Ele sempre fora meu herói brasileiro, meu artista preferido na música popular moderna, mas essa ligação mágica com minha volta ao Brasil dava a ele um caráter quase sobrenatural”.

Caetano veio, reuniu-se com o ídolo e com Gal em São Paulo, e juntos gravaram por cerca de seis horas, entre músicas e bate-papo, sob direção de Fernando Faro. O poeta Augusto de Campos, um dos espectadores felizardos, descreveu o encontro entre Caetano e João como “um bate-bola íntimo entre Pelé e Garrincha”. “Os duetos foram raros, porque João também estava entre os entusiasmados apreciadores de Caetano. No fim da gravação, pediu várias vezes que ele ficasse no Brasil”, contou, à época, a revista “Veja”.

 

'Ritmicamente rica'

O repertório teve grandes momentos, como o número de abertura abertura com João ao violão e Gal cantando “Ao voltar do samba” — um samba de Synval Silva de 1934 que fora lançado por Carmen Miranda.

“Eu achei maravilhoso, um jeito bem “joão gilbertiano” no violão, mostrando uma influência radical da estética do canto dele. Achei rica também ritmicamente, achei bonito”, comemora Gal, que se destaca ainda ao cantar, na sequência, “Falsa baiana”, “Meditação” e “Baby”. — Além disso, é muito importante que isso venha à tona, que seja lançado, porque mostra o registro de um encontro importante, que foi no período da ditadura militar. Era uma época sombria, onde tudo era proibido no Brasil.

Nos áudios disponibilizados por Fontes — divididos em dois arquivos de cerca de 30 minutos e uma playlist com sete gravações soltas —, destacam-se ainda os momentos em que João, Caetano e Gal unem forças em “Você já foi à Bahia?” e “Saudade da Bahia”, ambas de Dorival Caymmi, e “Coração vagabundo”, de Caetano; e as sessões solo de João (“Desafinado”, “Chega de saudade” e “Retrato em preto e branco”) e Caetano (“Asa branca”, “Na asa do vento”, “Fruta gigoia”, “A tua presença morena”...).

 

Gravação em fita da TV

As seis horas de fita viraram um especial televisivo de 1h30m com a promessa de ser lançado como álbum ao vivo. Foi João Gilberto quem vetou o lançamento fonográfico, algo permitido em contrato, e o material estava indisponível desde então.

A sorte é que o artista plástico Ion de Freitas Filho captou em fitas o material transmitido pela TV Tupi. Após um primeiro contato em 2008, ele ficou de mandar o material para Pedro Fontes, mas só concretizou a cessão recentemente, após Fontes chamar atenção por ter subido outro raridade de João Gilberto no YouTube: uma gravação do samba-enredo da Mangueira de 1986, “Caymmi mostra ao mundo o que a Bahia e a Mangueira têm”, que João cantou num show na França em 1989.

“Ion gravou direto da TV numa fita de rolo, dá para notar um chiado no começo da gravação, que é o barulho da fita no carretel. Ele me mandou o material já digitalizado e tratei aqui”, conta Fontes, criador da festa carioca de música eletrônica Wobble e que mantém o canal Esqueleto Lavrador há nove anos, onde se destacam as preciosidades de João Gilberto. “Minha relação com a música de João estreitou após os dois shows que vi no Ibirapuera, em 2008. Comecei usando para arquivo, informalmente, mas por insistência hoje digo que sou pesquisador de João Gilberto, criei contatos com pessoas que entendem e que sabem onde achar materiais raros”.

Fontes torce para que novos materiais de João Gilberto sejam disponibilizados de forma oficial, como a gravação do último show do músico, em Salvador, em 2008, que também foi gravado. Enquanto isso, disponibiliza o que encontra para fãs como ele:

“O canal não é monetizado, não dá lucro, por isso o material não sai do ar. São coisas gravadas aqui e ali. A ideia é compartilhar tudo o que eu encontrar. Sei a minha alegria ao encontrar uma gravação com essa, e sei que ela é compartilhada”.


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