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Cuiabá MT, Quinta-feira, 22 de Outubro de 2020
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Sábado, 17 de Outubro de 2020, 00h:00

TV

Gregório Duvivier: "É mais difícil fazer piada num panorama tão absurdo"

Apresentador vem comandando a quarta temporada do talk show "Greg News", da HBO, na casa da mãe, com a ajuda da família, e fala sobre amadurecimento, política e "olhos abertos" pela paternidade

PEDRO WILLMERSDORF
Da Agência Globo - Rio

A pedra que Gregório Duvivier vem carregando este ano parece ser bem diferente daquela que Sísifo, personagem da mitologia grega, empurrava diariamente morro acima, em movimento infinito. Nestes sete meses de mundo paralisado, o ator buscou usar a rocha sobre os ombros de 2020 para lapidar sua vida, tanto profissional quanto afetiva.

Além de interromper a turnê com a peça “Sísifo”, cujo texto — de sua autoria em parceria com Vinicius Calderoni — virou livro pela editora Cobogó, Duvivier precisou reinventar o “Greg News”, talk show exibido pela HBO às sextas-feiras.

O programa, em sua quarta temporada, estava de mudança: as gravações sairiam de um estúdio, no Santo Cristo, para um teatro em Copacabana. Mas aí veio a Covid-19... e a casa da mãe de Gregório se transformou em set. Ela própria, a cantora Olivia Byington, virou plateia. A irmã, Theodora, fotógrafa profissional, foi operar a câmera. E ainda tem o bônus da participação dos “assistentes” João e Bárbara, irmãos do apresentador.

"Essa foi uma das delícias dessa loucura toda, tem sido muito gostoso gravar com eles. Acabei descobrindo nessa quarentena que a gente tem quase uma produtora em casa".

A cena que talvez melhor resuma este momento seja o encerramento de “Leveza”, episódio de “Greg News” exibido em maio. Ao final do programa, Gregório surge na bancada ao lado da mãe dos três irmãos cantando “Menina amanhã de manhã”, de Tom Zé e Antonio Perna. O número musical viralizou e emocionou muita gente.

Aliás, a estreia dos Duviviers na equipe parece ter caído nas graças do público, a ponto do talk show ter a temporada esticada para 33 episódios, com o último a ser exibido em novembro, mês das eleições municipais.

 

E por falar em política, Gregório disseca sua relação com o humor sem isenção, fala da dificuldade em competir com a realidade e revela como Marieta, sua filha de dois anos (fruto do relacionamento com a gestora de marketing Giovanna Nader), o ajudou a amadurecer.

 

P - Como vê a quantidade de reviravoltas que rolaram no Brasil e no mundo nestes quatro anos de ‘Greg News’?

GD - Quando vejo os vídeos do começo, pareço outra pessoa. Vi o trecho de um episódio da primeira temporada e pensei: “Olha essa carinha de quem não sabe o que é pandemia, a cútis de quem abraça desconhecidos no meio da rua”. A impressão é de que se passaram décadas. Sinto que estamos acompanhando as mudanças junto com o público. Quando a gente fazia com plateia, teve um casal que se conheceu e agora vai ter filho. Talvez você nem saiba, mas tem um monte de gente usa o “Greg News” como date: “Bora lá em casa ver um episódio?”. Acho uma péssima ideia, é meio broxante e um encontro comigo falando de tanta hecatombe.

 

P - No programa, o humor é comprometido, de certa forma, com a informação. Como você equaciona essa relação?

GD - Enquanto as pessoas tentam arrombar, o humor pode passar pela fresta de uma porta. Nosso trabalho como humorista é entrar por essas frestas. O humor sempre me ajudou a entender as coisas. Sou fã do John Oliver (apresentador do talk show “Last week tonight”) e do Jon Stewart (do “Daily show”). E aqui no Brasil também há essa tradição do jornalismo político com humor. Basta lembrar do “Pasquim”, em plena ditadura, de Stanislaw Ponte Preta, e até mesmo de Gregório de Matos, que no século XVII criticava acidamente o governo colonial.

 

P - O cenário no Brasil desafia sua capacidade de fazer humor?

GD - É mais difícil fazer piada com um panorama tão absurdo quanto o nosso. Às vezes eu queria morar num país mais sério, tenho impressão de que seria mais fácil fazer piada. Quando você tem uma ministra que fala do lesbianismo da princesa de “Frozen” é mais puxado.

 

P - E o tal limite do humor, existe?

GD - Eu tenho uma liberdade editorial plena e não daria pra fazer esse programa de humor político sem ela. Não temos medo de ter uma posição, não buscamos isenção. O programa tem um ponto de vista. Claro que existem limites. Não podemos caluniar ninguém, não posso cometer crime. Mas dentro dos limites da lei, a liberdade garantida pelo Beto (Roberto Rios, vice-presidente corporativo de Produções Originais da HBO Latin America) é total. Há um grande perigo quando as pessoas deixam de fazer algo por medo da censura. Nesses casos, a censura já venceu sem sequer existir.

 

P - A pandemia também fez você passar pela experiência de uma sessão virtual de ‘Sísifo’, incorporando elementos da realidade em 2020. Como foi ?

GD - Foi uma das coisas mais doidas que já fiz. Começar uma peça sem saber se tem gente vendo, ao vivo, é muito louco. Tentei adaptar, cortar o que não fazia sentido. Mas acho que isso não é teatro, pois teatro tem que ter troca com a plateia. Pode se tornar um gênero daqui pra frente, mas não é teatro.

 

P - Muita coisa aconteceu num período curto: o sucesso do talk show, o nascimento de Marieta e até um ataque à sede do Porta dos Fundos. Você disse que pensou em deixar o Brasil. Ainda pensa?

GD - A relação com o Brasil, e com o Rio, é inescapável. Não me vejo morando em outro lugar. Em outro país ficaria mais agoniado, não conseguiria deixar de acompanhar, sofrendo à distância.

 

P - Acha que amadureceu nos últimos anos?

GD - Mudei muito, a paternidade abriu os olhos pra um monte de coisa. Perco menos tempo com besteira. Ou, pelo menos, tento não perder.

 

P - O que você leu, ouviu, viu de mais interessante nesses meses de pandemia?

GD - As lives da Teresa Cristina. Os poemas da Angélica Freitas no seu novo livro, “Canções de atormentar”. As séries “I may destroy you”, que porrada, e “Succession”, uma obra-prima. Ah, e a última temporada impecável de “High maintenance”, minha série preferida de todos os tempos. “Amor e sorte” e “Narciso em férias”. A Serra do Rio e sua vasta fauna de pássaros de todas as cores e sons. O livro “Falso espelho” da Jia Tolentino, uma excelente reflexão sobre as ciladas.


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